Open Insurance: padronização técnica de APIs e monetização segura de dados

Painel sobre Open Insurance no Fórum Nacional de Seguros, com Leandro Fernandes, CEO da lluni, João Pedro Madureira, Pedro Mata e João Veiga

O Open Insurance leva ao setor segurador o princípio que a banca já conhece do Open Banking: o cliente passa a poder autorizar a partilha dos seus dados de seguros entre diferentes operadores, através de interfaces técnicas normalizadas.

 

Na União Europeia, este movimento ganhou forma com a proposta de regulamento FIDA (Financial Data Access), apresentada pela Comissão Europeia em 2023, que inclui os seguros não vida e abrange seguradoras e mediadores de seguros.

 

Para a distribuição de seguros, a mudança toca em três pontos sensíveis: quem controla os dados do cliente, que linguagem técnica os sistemas usam para os trocar e que valor económico essa troca pode gerar. As respostas a estas perguntas vão influenciar a relação entre o mediador, a seguradora e o cliente, e a forma como o mercado vai competir nos próximos anos.

 

No Fórum Nacional de Seguros deste ano, um dos painéis mais técnicos do dia reuniu tecnologia, seguradoras e consultoria à volta de uma pergunta que vai marcar a próxima década da distribuição de seguros: como devem os operadores do setor organizar e partilhar dados entre si, com que padrões e em que condições de segurança?

 

A conversa, moderada por João Veiga, CEO da Elysian Consulting, contou com Leandro Fernandes, CEO da lluni, João Pedro Madureira, CEO e fundador da Uthere Partners, e Pedro Mata, administrador da Caravela.

Este artigo reúne as principais ideias do debate e analisa o tema na perspetiva da mediação de seguros, que lida há muitos anos com a diversidade de formatos de dados entre seguradoras. Também pode visualizar o vídeo do painel debate aqui.

 

O que é o Open Insurance

Na banca, o cliente já pode autorizar a partilha dos seus dados financeiros com outra instituição, por exemplo, para que um novo banco avalie um pedido de crédito com base no seu histórico real. A proposta FIDA, publicada em junho de 2023, alarga esta lógica a outras áreas financeiras, incluindo os seguros, e assenta em três princípios:

 

  • o cliente é o titular dos seus dados e decide se os partilha, com quem e durante quanto tempo;
  • a partilha faz-se através de APIs, o mecanismo que permite a dois sistemas comunicarem entre si, com um pedido de um lado e uma resposta do outro;
  • o acesso aos dados fica reservado a entidades autorizadas, num circuito regulado.

Como resumiu a Insurance Europe na sua análise à proposta FIDA, o objetivo é dar ao consumidor controlo sobre a forma como os seus dados financeiros circulam. Os mediadores de seguros podem atuar como detentores ou como utilizadores de dados, excetuando-se os seguros de doença e saúde e vida risco que ficam de fora deste âmbito.

 

A tecnologia está pronta, o desafio está na estratégia

Quando João Veiga pediu aos oradores que apontassem o principal bloqueador do Open Insurance, as respostas convergiram num ponto: a tecnologia é a parte mais acessível.

 

Leandro Fernandes lembrou que seguradoras e restantes operadores trabalham hoje com APIs todos os dias e que os sistemas core das companhias já têm camadas preparadas para expor dados ao mercado. Os entraves identificados estão na visão de negócio, nas questões políticas e numa cultura organizacional que tende a proteger os dados em excesso. O risco, na sua leitura, é o mercado limitar-se ao mínimo que a lei exigir, o que dá ao regulador um papel decisivo.

 

Pedro Mata, que acompanhou na banca a transição da PSD (Payment Services Directive) para a PSD2, centrou a questão na regulação: a União Europeia define os objetivos, mas a arquitetura técnica das estruturas de dados fica por desenhar. João Pedro Madureira acrescentou a falta de consenso sobre o que o setor quer fazer, com que calendário e com que prioridades.

 

Padronizar dados é o trabalho diário da mediação de seguros

Para quem desenvolve software para a mediação, a discussão sobre padrões tem uma dimensão muito concreta. Um mediador de seguros português trabalha, por regra, com várias seguradoras e cada uma organiza a informação à sua maneira. Por exemplo: um sinistro dado como encerrado numa companhia pode corresponder a um estado intermédio noutra. A mesma cobertura surge com redações diferentes consoante a apólice.

 

Leandro Fernandes explicou que o processo exige um esforço do setor segurador, mas o resultado mostra que a padronização é exequível. Atualmente, o Brasil já implementou o Open Insurance, ainda que com resultados abaixo do esperado, e em Espanha é usado o EIAC (Estándar de Intercambio de Información entre Entidades Aseguradoras y Corredurias ) para uniformizar a troca de dados entre seguradoras e mediadores.

 

O mediador tem de ter voz no desenho dos padrões

Em Portugal, a distribuição é maioritariamente multisseguradora e é o mediador quem consolida a carteira do cliente junto de várias companhias. Leandro Fernandes deixou, por isso, uma questão que o setor tem de resolver cedo: os dados que o mediador detém também ficarão sujeitos à partilha prevista no FIDA, e como se articulam com os dados que a seguradora disponibiliza?

 

A posição da lluni é que o regulador deve liderar a uniformização com a participação dos parceiros da distribuição e das empresas tecnológicas. O mediador é quem conhece a carteira do cliente como um todo e essa visão deve estar presente quando se definirem os padrões que o mercado vai usar.

O que o mediador pode fazer desde já

O calendário regulatório ainda está em construção, mas há trabalho que traz retorno imediato:

 

  1. Centralizar a carteira numa base de dados única e estruturada, com a informação de todas as seguradoras uniformizada, como acontece num software de gestão para a mediação de seguros integrado por webservices.
  2. Rever a gestão de consentimentos e de dados pessoais, com registo de quem autorizou, que dados e por quanto tempo, e com uma definição clara das responsabilidades que cabem ao mediador no tratamento da informação dos clientes.
  3. Reforçar a análise de carteira e a identificação de lacunas de cobertura, a competência que o Open Insurance mais vai valorizar.
  4. Dar ao cliente acesso digital à sua carteira, através de um portal do cliente independente da seguradora, para que a relação passe pelo mediador.
  5. Acompanhar o trabalho de padronização promovido pela APS, pela APROSE e pelo regulador, e perguntar aos fornecedores de tecnologia como estão a preparar os seus sistemas para APIs normalizadas.

Uma coisa é certa, a padronização dos dados vai chegar por via regulatória ou por iniciativa do próprio setor.

Para os agentes e corretores de seguros, isto significa preparar hoje os dados, os processos e a capacidade de aconselhamento que vão sustentar a sua posição quando o cliente tiver acesso a toda a sua informação.

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